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O efeito do avental branco: quando a emoção mascara a saúde

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O efeito do avental branco demorou a ser descoberto pela comunidade científica, mas hoje sabemos que é bastante comum e pode fazer toda a diferença no caso do diagnóstico da hipertensão.

 

Mas afinal, do que se trata esse efeito?

 

Trata-se de uma curiosa condição: a pressão do paciente se eleva significativamente no consultório com a presença do médico, escondendo sua pressão real. Há uma elevação momentânea de sua pressão arterial por emoção ou ansiedade – inclusive no paciente normotenso, ou seja, que tem pressão arterial normal, dentro da média esperada.

 

Pode acontecer, ainda, do paciente ir além do efeito e desenvolver a hipertensão do avental branco – ou seja, sua pressão perante o médico se eleva tanto, que ele passa a ser hipertenso na presença do médico e continua normotenso fora do consultório. Possivelmente, seu lado emocional o leva à condição de hipertenso na presença do médico.

 

E como descobrimos que os números apresentados devem-se ao efeito do avental branco? Precisamos monitorar todas as medidas do paciente durante 24 horas, ou seja, também fora do consultório.

 

Efeito conhecido desde o século XIX

 

A primeira descrição do efeito do avental branco foi feita em 1896(!) por Scipione Riva-Rocci, médico italiano.

 

Na ocasião, Riva-Rocci fez a seguinte descrição: “O estado mental do paciente tem um efeito transitório mas considerável na pressão sanguínea. Falar com o paciente, convidá-lo a ler ou olhar de repente para ele, assim como um barulho repentino, fazem a pressão subir.”

 

E completou: “A simples colocação do aparelho pode causar um aumento temporário da pressão sanguínea. É necessário tomar não uma leitura, mas várias sucessivas. Como 3 medidas em 3 minutos, ou 5 em 5 minutos, até que, na média, a pressão obtida seja constante”.

 

Como evitar?

 

efeito do avental brancoAos colegas de profissão, geralmente, é recomendado que evitem realizar a medida da pressão arterial com pressa, nos primeiros minutos da consulta. Aos pacientes, não há muito o que recomendar, pois o efeito do avental branco é inconsciente. Muitas vezes, o paciente não sente nervosismo, nem nada do tipo, que leve à crença de que uma aferição está descompensada por isso.

 

Além do efeito do avental branco, nos deparamos também com o cenário oposto: a hipertensão mascarada, em que a pressão arterial do paciente mostra-se menor durante a consulta, mas ele é hipertenso fora do consultório. Também é preciso mapear e tirar uma média, principalmente em pacientes com histórico familiar de hipertensão.

 

Por isso é importante confiar no seu médico: resultados no consultório podem enganar! Se ele sugere um monitoramento mais expressivo, exames ou medicamentos, é preciso seguir para obter os melhores resultados. Não deixe de cumprir o que lhe é solicitado durante uma consulta – os benefícios serão sentidos pela vida!

Jejum intermitente traz benefícios à saúde?

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Há algum tempo temos ouvido que “está na moda” seguir a dieta do jejum intermitente. Entretanto, o tema não é novidade e há artigos e estudos científicos que buscam entender cada vez melhor o impacto que ele tem em nosso corpo. Aqui, vou me basear em um artigo de 2019, escrito por Rafael de Cabo e Mark P. Mattson e publicado no The New England Journal of Medicine.

 

Nele, os autores falam que os resultados mostraram que muitos dos benefícios do jejum intermitente à saúde não são devidos apenas a produção reduzida de radicais livres e a perda de peso. Ele provoca respostas adaptativas celulares, colaborando para melhor regulação da glicemia, aumenta a resistência ao estresse e suprime inflamações. Ou seja, suas consequências podem ser melhores do que uma mera dieta para perder peso.

 

O jejum intermitente melhora vários indicadores da saúde cardiovascular em animais e humanos, incluindo pressão sanguínea; frequência cardíaca em repouso; níveis de lipoproteína de alta e baixa densidade (HDL e LDL) colesterol, triglicerídeos, glicose, e insulina; e resistência à insulina. Além disso, o jejum intermitente reduz marcadores de inflamação sistêmica e estresse oxidativo associados à aterosclerose.

 

Entendendo o que é jejum intermitente

Em suma, o jejum intermitente é nada mais, nada menos do que deixar de comer, ou reduzir drasticamente a alimentação durante um certo período de tempo. Esse período pode ser de 6 horas, 8 horas, 12 horas, podendo chegar a 18 horas diárias. Esse tipo de dieta, de acordo com o Conselho Internacional para Informação sobre Alimentos (IFICsigla em inglês), foi mais popular em 2018.

 

Como exemplo, pode-se escolher um regime alimentar diário de jejum de 6h podendo progredir para 8, 12 ou 18 horas e um período de alimentação correspondente de 18h, podendo progredir para 16, 12 ou 6 horas ou o regime de jejum intermitente de 5:2, lê-se 5 por 2, ou seja jejum (ingestão de 500 calorias) 2 dias por semana, com um período de transição de quatro meses para atingir a meta.

 

jejum intermitente representado por um prato vazio numa mesaO efeito disso no corpo é o seguinte: a glicose e os ácidos graxos são as principais fontes de energia para as células e, após as refeições, a glicose é responsável por dar energia e a gordura é armazenada no tecido adiposo na forma de triglicerídeos. Nos períodos de jejum, os triglicerídeos são quebrados em ácidos graxos e glicerol, usados para energia. O fígado converte esses ácidos graxos em corpo cetônicos, que se tornam os principais fornecedores de energia para muitos tecidos, principalmente para o cérebro.

 

Diferente de como vivemos hoje, nossos ancestrais não faziam três refeições diárias, intercalando as refeições principais com lanches e petiscos. Por isso, nosso corpo ainda aceita bem e responde quando fazemos o jejum intermitente.

 

Entretanto, é preciso estar atento, pois os resultados podem ser diferentes de acordo com o sexo, dieta, idade e fatores genéticos de cada um.

 

Apesar de ainda não entendermos completamente mecanismos específicos do jejum intermitente, sabe-se que os efeitos benéficos envolvendo mudança metabólica e resistência ao estresse celular existem. Não é à toa que a prática tem crescido e conquistado tantos adeptos ao redor do mundo.

 

Na dúvida, não inicie nada sozinho: converse com seu médico, até para ajustar um cardápio ideal para você. Hipertensos devem ter ainda mais cuidado, pois não podem errar quando chega a hora de comer. Vamos emagrecer, mas com consciência e sempre com saúde!

 

Fonte: N Engl J Med 2019;381:2541-51.

DOI: 10.1056/NEJMra1905136

Ano novo, vida nova: vamos cumprir a promessa de emagrecer?

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Economizar dinheiro, frequentar uma academia, parar de fumar: estas, talvez, sejam as mais populares promessas de ano novo, ao lado, claro, da campeã: este ano vou fazer dieta e emagrecer!

E não se engane: mesmo que você não tenha prometido perder peso em 2020, deve ter ganhado algo com as comilanças e eventos de fim de ano. Então, é bom não relaxar: se você ganhar um quilo em todo fim de ano e não mais perder, em cinco anos estará cinco quilos mais pesado – e, acredite, isso vai literalmente pesar negativamente para um envelhecer com saúde.

E uma pessoa hipertensa deve tomar ainda mais cuidado: dietas e exercícios são diferentes para quem precisa controlar a pressão.

 

Passe no médico antes de iniciar exercícios para emagracer

emagrecerHipertensos devem focar em atividades aeróbicas para ajudar a emagrecer – estou falando aqui de caminhada, corrida leve, hidroginástica, natação ou até mesmo aulas de dança.

Atividades com peso, como a musculação, também podem ser realizadas, sem muito peso. Levantar peso faz a pressão aumentar.

O lado bom do exercício, além de ajudar a emagrecer, é que, depois de realizado, ele tende a contribuir para a baixa da pressão, um ponto muito positivo para o hipertenso.

Se você tem pressão alta, seja qual for a atividade que você vá iniciar, lembre-se de checar se sua pressão está sob controle, de preferência passando em consulta com seu médico. Ele irá avaliar se você deve realizar algum exame antes de iniciar os exercícios. De qualquer forma, geralmente só liberamos para o exercício aqueles pacientes com pressão abaixo de 16 por 10.

Se você recebeu o aval para a prática esportiva, não se esqueça de se hidratar constantemente; a falta de líquido no organismo pode prejudicar os rins.

 

Equilíbrio no prato, e nada de sal

A dieta para emagrecer, seja você hipertenso ou não, deve sempre ser acompanhada por um profissional da saúde. Não caia na tentação de repetir o cardápio de um conhecido; o seu organismo é único e merece cuidado.

Não é segredo que o sal é o grande inimigo de quem tem pressão alta. Ele faz o corpo reter líquido, o que faz aumentar o volume de sangue circulando pelo corpo, sobrecarregando as artérias – e é aí que vem a pressão alta. O sal também incha, então não é nada indicado para quem quer perder peso. E lembre-se que, por sal, estamos falando de sódio; muitos alimentos, especialmente industrializados, carregam grandes quantidades de sódio e devem ser simplesmente deixados de lado.

Além disso, interferem na pressão:

  • Frutas e vegetais – principalmente a banana – são importantes pelo potássio, pois ele ajuda a baixar a pressão;

  • Álcool: cuidado! Uma dose ajuda a relaxar os vasos, mas muitas têm o efeito oposto, e os contraem!

Sempre considere que, quanto mais colorido o prato, melhor para sua saúde. Busque consumir todos os grupos alimentares e nunca coma mais do que precisa para saciar a fome. Novamente, o acompanhamento médico ou de um nutricionista para construir o melhor cardápio para o hipertenso é o ideal! Bom exercício e bom apetite!

Você é o que você come, e sua pressão também

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Começa com um inocente panetone, recebido no início de dezembro de algum conhecido. Daí pra frente, é “ladeira abaixo”: almoço de confraternização do trabalho, churrasco, feijoada, caipirinha, mais refrigerante do que o normal, happy hour com os amigos, uma cerveja ou talvez outro vinho, outro almoço de fim de ano com outros amigos, leitão a pururuca, um pudinzinho de sobremesa, e chegam as festas de fim de ano, peru, arroz com passas, arroz sem passas, maionese, chester (que é um frango modificado), vizinha deu um chocotone, sobrou pavê, que tal passar um cafezinho?

Cansou? Pois imagina seu organismo – afinal, você é o que você come.

Essa é a época em que grande parte das pessoas se permite exagerar – afinal, são encontros que nunca acontecem, sabores diferenciados, cardápios únicos, tempo de celebrar e se preparar para o reinício, tudo com cara de dezembro. E devemos nos permitir? É claro – comer faz parte da construção da nossa felicidade. Mas devemos nos permitir até quanto?

 

Depois eu resolvo

É preciso ter em mente que ganhar peso, para um adulto, é muito mais fácil do que perder – o “depois eu resolvo” vira um capítulo eterno. E ganhar peso é algo que seu organismo simplesmente não merece.

A obesidade faz com que o sistema nervoso autônomo que regula o calibre dos vasos fique hiperativo e, com isso, cause vasoconstrição – as artérias se fecham e a pressão sobe. Além disso, a obesidade promove retenção de sódio que também contribui para elevação da pressão.

Quando a pessoa não tem obesidade, a elevação da pressão estimula os rins a eliminar mais sódio e a pressão se normaliza, mas nos obesos ocorre o oposto: neles não é feita a eliminação de sódio como deveria, ou seja, o rim de quem está acima do peso vai reabsorver mais sódio. Vira um círculo vicioso.

Eu não diria que a obesidade causa a hipertensão, mas sim que ela desempenha um papel importante em seu desenvolvimento, especialmente nas pessoas que têm tendência hereditária de ter a pressão alta. Outros fatores que colaboram para esse desenvolvimento são o sedentarismo, o excesso de álcool e de sal. E nunca se esqueça: a hipertensão pode surgir sem anunciar, pois ela não causa sintomas. Os sintomas da pressão só ocorrem quando existe comprometimento dos vasos, principalmente, do coração, cérebro ou rins.

Sendo assim, em um descuido de fim de ano, pequenos exageros seguidos podem contribuir para uma piora na sua saúde. Vale a pena?

 

É para passar vontade? 

Não quero aqui fazer o papel do chato dizendo para comer alface enquanto  seus colegas repetem o peru com maionese. Como eu disse, comer nos deixa mais satisfeitos e felizes. Mas por que não se cuidar também nesse período? você é o que você come

Considere o que vai consumir: o que tem na mesa? Eu preciso comer “tudo de tudo”? E, se fizer questão, não é possível reduzir um pouco as quantidades em geral? Uma colher de arroz, ao invés de duas? Revezar o álcool com copos de água? O doce folhado está maravilhoso, mas será que cabe mesmo o segundo pedaço? Descubra a satisfação de comer conscientemente! Experimente!

É um cuidado que você pode ter consigo mesmo: se pensar com calma que você é o que você come, talvez se assuste um pouco com o estado de seu corpo e de sua saúde. E é só você mesmo quem decide o que come. Outro famoso ditado diz que a vida é feita de escolhas…Um brinde a sua saúde!

Conheça os diferentes remédios para a pressão alta

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Decidi explicar aqui os diferentes tipos de remédios para a pressão alta para que vocês entendam por que o remédio de um paciente nem sempre é igual ao de outro. Há muitas condições de saúde paralelas que influenciam nossa decisão na hora de definir o melhor medicamento para aquela pessoa; por isso, é essencial que cada um visite seu médico e faça seu acompanhamento.

Em primeiro lugar, é importante saber que o tratamento para pressão alta é empírico porque, na maioria dos pacientes, não sei qual o mecanismo que está elevando a pressão. Assim, dou preferência a medicamentos que sejam bem tolerados e atuem sobre mecanismos que, de modo geral, estão implicados na elevação da pressão.

Além disso, a estratégia que eu emprego para o tratamento da pressão alta é baseada em dois princípios. Inicialmente, administrar medicamentos em doses baixas para evitar efeitos colaterais e, depois, associar medicamentos que atuem em mecanismos diferentes. Utilizando dois ou mais medicamentos em doses baixas, podemos controlar a pressão de praticamente todos os pacientes. Sempre digo: “Não há pressão que eu não controle”. Com os medicamentos disponíveis, podemos colocar a pressão em níveis ótimos sem efeitos colaterais.

remédios para a pressão altaAntes de falar sobre os remédios para a pressão alta, um alerta: deve-se evitar a automedicação. Não existe tomar o remédio que sobrou do vizinho; não existe experimentar uma semana o comprimido do seu pai, porque você acha que está com pressão alta e ele já trata a condição. Simplesmente, não existe! Automedicação é um convite para a piora. Exatamente porque cada organismo é único, o tratamento precisa ser individualizado e o seu médico é quem pode saber qual o melhor medicamento para você.

Sei que parece perda de tempo falar sobre isso em um país onde, a cada hora, três pessoas são vítimas de automedicação, segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF). Mas precisamos insistir. Conhece quem se automedica? Pare tudo e alerte essa pessoa já: ela pode estar indo para o caminho contrário do que imagina!

Cada caso é um caso

Listo, a seguir, os remédios para a pressão alta mais comuns para que vocês entendam como a condição global do paciente é importante para a escolha do medicamento. Todos os remédios para a pressão alta são vasodilatadores por diferentes mecanismos:

  1. Inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA): são medicamentos muito utilizados para o tratamento, pois impedem que o hormônio que aumenta a pressão, chamado angiotensina, seja produzido; a angiotensina é um vasoconstritor, ou seja, fecha os vasos e faz a pressão subir. Quando inibimos a angiotensina, evitamos a vasoconstrição e temos vasodilatação, ou seja, vasos relaxados e, com isso, a pressão abaixa; o principal efeito colateral dos IECA é a tosse;

  2. Bloqueadores dos receptores da angiotensina (BRA): são medicamentos que também inibem a ação da angiotensina, mas diferente dos IECAs, que inibem a produção da angiotensina, os BRAs bloqueiam a sua ação no receptor de angiotensina e também promovem vasodilatação; são muito bem tolerados e praticamente não têm efeitos colaterais;

  3. Diuréticos Tiazídicos: são diuréticos suaves que, no primeiro mês, eliminam um pouco mais de sal e água, mas depois abaixam a pressão por mudar a reatividade dos vasos levando a vasodilatação que, como vimos, abaixa a pressão. Não promovem aumento da quantidade de urina habitualmente eliminada. Os principais efeitos colaterais são fraqueza, câimbras e disfunção erétil. Os diuréticos chamados “diuréticos de Alça” são muito potentes e utilizados para provocar o aumento da quantidade de urina e, consequentemente, ajudar a reduzir o inchaço; são pouco utilizados para controlar a pressão;

  4. Vasodilatadores periféricos e de ação central: são medicamentos potentes que causam vasodilatação por agirem diretamente na parede dos vasos – vasodilatadores periféricos – ou no cérebro, inibindo os estímulos elétricos que causam vasoconstrição – vasodilatadores de ação central; os principais efeitos colaterais dos vasodilatadores de ação central são sonolência e boca seca; os de ação periférica são potentes e podem abaixar muito a pressão;

  5. Bloqueadores dos canais de cálcio: dilatam os vasos sanguíneos por impedir que o cálcio promova vasoconstrição. Assim, ocasionam vasodilatação que abaixa a pressão; o principal efeito colateral é o inchaço de tornozelo;

  6. Betabloqueadores: promovem vasodilatação agindo em vários locais, como coração, rins e nervos. Os principais efeitos colaterais são redução dos batimentos do coração (bradicardia), pesadelos e disfunção sexual.

Pelas breves descrições, já é possível perceber como um remédio pode ser ideal para um paciente e, para outro, maléfico. Imaginem o risco de uma pessoa com frequência cardíaca baixa tomar um betabloqueador…

Cada paciente recebe seu remédio de uma forma; por isso, há os que sofrem mais com efeitos colaterais e há os que não percebem alteração após a ingestão do remédio.

E até quando você vai tomar seu comprimido? Possivelmente, até o fim da vida, já que a hipertensão é uma doença crônica, sem cura. Parece ruim, mas não é. A boa notícia é que, se você controlar a pressão, não terá sua vida encurtada e nem as complicações da doença – AVC, infarto e paralisação dos rins. Se houver algum caso em que você deva parar de tomar, é o seu médico quem vai indicar. E, também, se você precisar mudar o tipo de medicamento, adivinha? Sim, seu médico saberá quando e o que fazer.

Devo medir a pressão arterial em casa?

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Devo medir a pressão arterial em casa? Sem dúvida! Atualmente, estima-se que 35% da população brasileira tenha pressão alta – é muita gente! Ela é o principal fator de risco para doenças como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC) – é importantíssimo, portanto, controlar sua pressão. Os aparelhos de uso doméstico podem ser úteis não apenas para quem está fora dos padrões de pressão normal, mas também para aqueles que estão sob tratamento, para que possam acompanhar o controle da pressão.

Porém, é preciso ter alguns cuidados para que a medição seja feita de forma correta e traga resultados confiáveis.

 

Quem deve medir?

Tendo o aparelho em casa, pode-se medir a pressão de toda a família, claro. Porém, ressalto aqui quem deve ter mais atenção com esse acompanhamento:

  • A pressão ideal é abaixo de 12 por 8. Estando nessa média, sugiro que a pessoa meça sua própria pressão uma vez por ano;

  • Pressão entre 12 por 8 e 14 por 9 significa uma situação limite – recomendo que a medição seja feita a cada seis meses;

  • Pressão igual ou acima de 14 por 9 – é a pressão alta. O indivíduo precisa medir diariamente no início do tratamento, antes do desjejum e do jantar. É preciso manter a medição até a pressão se estabilizar – o que ocorre quando a última difere menos de 5 pontos da anterior.

Há dois anos, tive o prazer de ter essa discussão com o Dr. Roberto Kalil no Programa Bem Estar da Rede Globo – confira mais dicas no vídeo:

 

Como medir a pressão arterial em casa?

Ao medir a pressão arterial em casa, é essencial se sentar e estar tranquilo, em estado de repouso. Fazer a medição em uma situação tensa, de correria ou ansiedade não vai traduzir a verdadeira pressão arterial da pessoa. 

Por isso, não recomendo confiar naquela checagem que, por vezes, nos oferecem nas ruas, pois, além da pessoa não estar sentada e em condições de repouso, esse nem é o local para isso. Aqueles equipamentos automáticos de farmácia também não são ideais – a pessoa coloca o antebraço na máquina, o que já está errado, e se mantém em pé. A chance de obter um resultado errado e levar um susto é grande…

Com aparelho digital automático, que é o que mais recomendo, coloque a braçadeira 2 a 3 cm acima da dobra do braço, e aperte-a, mas não excessivamente – pode passar um dedo entre a braçadeira e o braço. Apoie o cotovelo em uma mesa e vire a mão para cima. 

Neste vídeo, há um passo a passo bem detalhado:

https://globoplay.globo.com/v/7010629/

 

Há aparelhos digitais com bomba, mas não são ideais para a automedição, porque o próprio paciente terá que fazer esforço para pressionar a bomba. Existem, também, os que medem pelo pulso, mas não acho muito confiáveis… Se for usar, o aparelho no pulso esquerdo com o monitor virado para dentro, também com o cotovelo apoiado na mesa e a palma da mão para cima É essencial que o punho esteja na altura do coração para um resultado mais seguro.

 

Atenção: seu aparelho deve estar calibrado!

Os aparelhos para a medição devem ser calibrados uma vez por ano, e há lojas especializadas que fazem esse serviço, além de alguns hospitais e até mesmo o Inmetro.

Calibrar não significa fazer um conserto ou ajuste, mas comparar os valores de um instrumento com uma referência padrão. Ao calibrar, você garante a qualidade e precisão dos resultados – aparelhos há muito tempo sem calibração podem dar resultados errados. 

Com tudo em mãos, faça as medições necessárias, mas não se esqueça: apenas o acompanhamento médico profissional pode garantir o tratamento correto e a manutenção da qualidade de vida e da saúde. Não confie que apenas o seu controle em casa possa garantir que tudo esteja certo. Mesmo quem parece ser saudável e não sente sintomas deve fazer um check up anual.

Hipertensão: o tratamento é todo dia!

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Depois de tantas décadas de atuação na Medicina e, especificamente, na área de Nefrologia, decidi iniciar este blog semanal em meu site para me aproximar dos pacientes e leitores e trocar mais ideias e informações sobre questões ligados aos fatores de risco cardiovascular – tais como sal, álcool, colesterol, obesidade, sedentarismo e especialmente, a hipertensão, tema a que tenho me dedicado por todos estes anos na minha clínica e também nas áreas de pesquisa e ensino.

E a primeira e mais importante mensagem que devo deixar ao iniciar este blog é a da importância da manutenção do tratamento. Como eu gostaria que todos os meus pacientes, e também os que não o são, mas sofrem de hipertensão, entendessem isso e levassem essa regra para a vida!

A hipertensão, ou pressão alta, como preferir, não tem cura. Me formei em Medicina em 1976 e nada mudou nesse aspecto. Mas o que mudou, e muito, foram as condições e facilidades de diagnóstico e tratamento.

Consideramos alta a pressão que chega aos 14 por 9. A maioria dos hipertensos não sente nada, porque a pressão alta não tem sintomas. Os sintomas só aparecem quando a pressão já tornou os vasos endurecidos; o coração, cérebro e rins começam a sofrer e a pessoa pode ter alguns sintomas que mostram o comprometimento destes órgãos, como falta de ar, inchaço nas pernas e dor no peito. Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental para evitar as complicações da doença, como derrame (AVC), infarto e paralisação dos rins. Para quem tem o diagnóstico de hipertensão, o acompanhamento médico é essencial porque você não terá como saber se sua pressão anda subindo constantemente se não há sintomas.

 

Cada paciente é único

E deu-se o diagnóstico. Pois bem, o seu médico certamente vai indicar um medicamento para manter sua pressão em dia.

hipertensão tratamentoNão há uma regra: o tipo de tratamento e a medicação variam de acordo com a pessoa, dependendo da existência ou não de complicações causadas pelo avanço da doença.

E é isso: remédio todo dia, para o resto da vida? Sim! Só com a manutenção do tratamento sua pressão vai se comportar e evitar, inclusive, que você tenha outros desdobramentos complicados na Saúde.

E se eu for beber álcool? Não tem problema – tome o seu remédio da mesma forma. Posso ficar sexualmente impotente? Não, isso é coisa do passado. Com os remédios atuais, impotência não tem nada a ver com o tratamento para pressão alta. Sentirei efeitos colaterais? Não obrigatoriamente; muitos pacientes não sentem nada, mas outros, sim – daí a importância de não fazer comparações entre você e outros hipertensos. Mas lembre-se que o seu médico é capaz de, por tentativa e erro (porque o tratamento da pressão alta é empírico), descobrir qual o melhor medicamento para você. E descobrir também qual a dose de que você precisa. Às vezes, com doses muito pequenas, você pode ter a pressão controlada sem o risco dela cair muito. Aí, sim, você vai ter sintomas. Diferentemente da pressão alta, a baixa deixa você com tontura, mal-estar, sem vontade de fazer qualquer coisa.

E, finalmente, os medicamentos para hipertensão não viciam, não causam nenhuma dependência física ou psicológica, isso não existe. Caso deixem de fazer o efeito esperado, podem ser trocados, o que será feito pelo seu médico.

Não há, portanto, desculpa para não engolir seu comprimido diário e garantir, assim, mais saúde e qualidade de vida. Nada vai fazer sua pressão alta deixar de existir – mesmo que ela siga, por semanas, sob uma medição que parece regular. Não se deixe enganar: hipertensão é para a vida toda! Adote a mudança de tomar o remédio e siga sua vida mais tranquilamente! Na realidade, tratar a pressão alta é uma alegria porque, deste modo, você evita as complicações da doença e não tem sua vida encurtada. Portanto, curta a alegria de tratar a pressão e levar uma vida normal!