A demência é uma das condições mais temidas do envelhecimento. Ela não afeta apenas a memória: afeta a identidade, a autonomia, a capacidade de reconhecer as pessoas amadas. Para famílias inteiras, o diagnóstico muda tudo.
O que muita gente ainda não sabe é que uma parcela significativa dos casos pode ser prevenida, ou ao menos postergada, com atitudes concretas ao longo da vida. E isso não é promessa vaga. A ciência acumulada nas últimas décadas aponta nessa direção com crescente consistência.
Em 2024, a Comissão Lancet sobre Prevenção e Tratamento da Demência publicou uma atualização abrangente: cerca de 45% dos casos de demência no mundo são potencialmente evitáveis pelo controle de 14 fatores de risco modificáveis. São eles: pouca escolaridade na infância; perda auditiva; depressão; traumatismo craniano; inatividade física; diabetes; tabagismo; hipertensão arterial; obesidade; consumo excessivo de álcool; isolamento social; poluição do ar; colesterol LDL elevado na meia-idade; e perda visual não corrigida.
Quatorze fatores, todos modificáveis. Vale dizer que alguns dependem de escolhas individuais; outros também exigem acesso a diagnóstico, tratamento e políticas públicas.
Esse número de 45% merece ser lido com cuidado. Não quer dizer que metade das demências seria automaticamente evitada se todo mundo fizesse tudo certo. Mas quer dizer que existe uma janela real de prevenção, e que atuar sobre esses fatores, um de cada vez, tem impacto concreto na vida de pessoas reais.
Nesta série de postagens, vou me aprofundar em três deles: a hipertensão arterial, a inatividade física e o diabetes tipo 2. São condições muito prevalentes no Brasil, frequentemente coexistentes, e para as quais dispomos de intervenções eficazes e bem estudadas. Este texto apresenta o contexto geral. Nas postagens seguintes, abordo cada fator separadamente.
O cenário da demência hoje
Atualmente, cerca de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo. Todos os anos surgem quase 10 milhões de novos casos — um ritmo que não mostra sinais de desaceleração. Segundo estimativas do estudo de Carga Global de Doenças de 2019, publicado no Lancet Public Health, esse número deve chegar a aproximadamente 153 milhões em 2050, quase o triplo do atual. Esse crescimento é explicado principalmente pelo envelhecimento da população, com contribuição adicional de fatores cardiometabólicos, como obesidade e glicemia elevada.
No Brasil, o envelhecimento acelerado da população torna essa questão particularmente urgente. Muitas das condições que alimentam o risco de demência já estão presentes na população em larga escala, frequentemente sem diagnóstico, sem tratamento adequado e sem que o paciente tenha consciência do impacto cognitivo que carregam.
Por que o cérebro envelhece mais rápido em alguns do que em outros?
O cérebro não é um órgão isolado. Para funcionar bem e envelhecer de forma saudável, ele depende de oxigênio, de glicose, de integridade vascular e de um ambiente interno equilibrado. Quando esse ambiente é cronicamente perturbado por pressão alta, por açúcar elevado ou por sedentarismo, o dano se acumula de forma silenciosa ao longo dos anos.
A demência, na maioria dos casos, não aparece do nada. Ela é construída ao longo de décadas por fatores de risco que agem de forma lenta e cumulativa. Quanto mais cedo esses fatores são identificados e controlados, em especial entre os 40 e os 65 anos, maior é o impacto da intervenção sobre o risco cognitivo tardio.
Hipertensão arterial: o cérebro paga o preço da pressão alta
A hipertensão arterial na meia-idade é um dos fatores de risco mais bem estabelecidos para demência em fase tardia da vida. A pressão elevada compromete a integridade da barreira hematoencefálica, estrutura que protege o tecido cerebral de substâncias indesejadas circulantes. Favorece microinfartos silenciosos e lesões da substância branca, as chamadas leucoaraiose, podendo contribuir para declínio cognitivo progressivo. Há também evidências de que a hipertensão facilita o acúmulo de proteínas amiloides no tecido cerebral, um dos marcadores centrais da doença de Alzheimer.
O que os estudos mostram sobre o tratamento? Em 2025, He e colaboradores publicaram no Nature Medicine um grande ensaio clínico randomizado por clusters, com cerca de 34 mil pessoas com hipertensão não controlada, no qual uma intervenção intensiva para redução da pressão arterial reduziu em aproximadamente 15% o risco de demência. Meta-análises de outros ensaios randomizados também apoiam a ideia de que o tratamento anti-hipertensivo reduz o risco cognitivo, embora o efeito absoluto varie entre os estudos.
A Organização Mundial da Saúde, em suas diretrizes de 2019, recomenda o tratamento da hipertensão como intervenção para redução do risco cognitivo, com recomendação condicional. A qualidade da evidência para o desfecho específico de demência é considerada ainda limitada; o tratamento, porém, é fortemente indicado pelos seus benefícios cardiovasculares, renais e cerebrovasculares.
Na prática: medir a pressão regularmente, tratar com rigor quando necessário, e entender que o controle pressórico protege o coração, os rins e o cérebro. Os três ao mesmo tempo.
Inatividade física: sedentarismo como fator de risco cognitivo
Pessoas fisicamente inativas têm risco aproximadamente 40% maior de desenvolver demência em comparação com quem mantém atividade física regular. Esse dado emerge de revisões sistemáticas e meta-análises que consolidam décadas de estudos epidemiológicos.
Os mecanismos são bem documentados. O exercício aeróbico estimula a produção do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), uma proteína que favorece o crescimento e a sobrevivência de neurônios, especialmente no hipocampo, estrutura central para a memória. Promove a formação de novos vasos cerebrais, melhora a oxigenação e reduz marcadores inflamatórios ligados ao processo neurodegenerativo. Em alguns estudos de neuroimagem, programas de exercício aeróbico se associaram à preservação ou aumento do volume hipocampal, embora esse efeito não seja universal nem de magnitude garantida.
A dose recomendada pela OMS é de pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada, como caminhada rápida, ou pelo menos 75 minutos de intensidade vigorosa, como corrida ou natação. O fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana complementa esses benefícios.
Vale dizer: qualquer quantidade de atividade é melhor do que nenhuma. Para quem está começando do zero, o ponto de partida não precisa ser ambicioso. Precisa ser constante.
Diabetes tipo 2: quando o metabolismo afeta o cérebro
O diabetes tipo 2 talvez seja o fator mais subestimado desta série em termos de impacto cognitivo.
Pacientes com diabetes tipo 2 apresentam risco aumentado de demência em comparação com a população geral. As estimativas variam entre os estudos, mas meta-análises apontam para um aumento em torno de 50% no risco de demência em geral e de 60% no risco específico para doença de Alzheimer. Esses números precisam ser interpretados com cautela: o diabetes raramente aparece sozinho. Ele frequentemente coexiste com hipertensão, obesidade, dislipidemia e sedentarismo, condições que também aumentam o risco de demência de forma independente.
Do ponto de vista fisiopatológico, os mecanismos são variados. A hiperglicemia crônica causa acúmulo de produtos de glicação que lesionam neurônios e a vasculatura cerebral. A resistência à insulina no cérebro, onde a insulina tem papel relevante na plasticidade sináptica e na memória, favorece o acúmulo de proteínas amiloides e tau. O diabetes tipo 2 compartilha, portanto, vias fisiopatológicas com a doença de Alzheimer, especialmente resistência à insulina, inflamação, disfunção vascular e alterações do metabolismo energético cerebral. O estado inflamatório crônico amplifica o processo neurodegenerativo, e a microangiopatia diabética produz lesões isquêmicas silenciosas semelhantes às causadas pela hipertensão.
A OMS inclui o tratamento do diabetes entre as medidas para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência, com recomendação condicional. A qualidade da evidência direta para esse desfecho específico é considerada muito baixa; o tratamento é indicado sobretudo pelos seus benefícios metabólicos, cardiovasculares e renais. Em pacientes idosos, vale lembrar que a meta glicêmica deve ser individualizada: hipoglicemias frequentes também se associam a maior risco cognitivo, de modo que o objetivo é manter a hemoglobina glicada nas metas definidas em conjunto com o médico, evitando tanto hiperglicemia persistente quanto episódios de queda de glicose.
O que conecta esses três fatores
Hipertensão, sedentarismo e diabetes tipo 2 atuam sobre a vasculatura e o metabolismo cerebral ao longo do tempo, de forma silenciosa, bem antes de qualquer sintoma cognitivo aparecer. E os três são modificáveis.
As diretrizes da OMS e a Comissão Lancet sublinham que as intervenções para prevenção da demência e as intervenções para prevenção de doença cardiovascular e diabetes são, em grande parte, as mesmas. Cuidar da pressão, movimentar o corpo e controlar a glicemia são medidas que protegem o coração, os rins e o cérebro ao mesmo tempo. Esse alinhamento é relevante: não se trata de acrescentar mais uma preocupação à vida do paciente, mas de entender que o que já se faz por um motivo também protege por outros.
Quando começar?
Quanto antes, melhor. A meia-idade, entre os 40 e os 65 anos, é o período em que o controle desses fatores de risco tem maior impacto sobre o risco cognitivo tardio. Mas há evidências de que intervenções em qualquer fase da vida adulta trazem benefício.
O processo que leva à demência demora décadas. A janela de prevenção é ampla. E cada passo na direção certa tem o seu valor.
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