O Quarteto Fantástico que protege os seus rins

Você já ouviu falar que existem quatro classes de medicamentos capazes de proteger os rins e reduzir drasticamente o risco de diálise? A medicina avançou muito nas últimas duas décadas e hoje dispomos de um arsenal terapêutico poderoso, sustentado por evidências sólidas publicadas nas melhores revistas científicas do mundo. Neste artigo, apresento o que chamo de Quarteto Fantástico da Proteção Renal: quatro classes de remédios que, combinados de forma personalizada, podem mudar o curso da doença renal crônica.

Por que a doença renal crônica é tão preocupante?

A doença renal crônica afeta cerca de 850 milhões de pessoas no mundo e, na maioria dos casos, avança em silêncio. Não dói. Não avisa. Quando os sintomas aparecem, inchaço, cansaço, falta de ar, boa parte da função dos rins já se perdeu. Por isso, proteger os rins cedo, antes que o dano se instale, é muito mais eficaz do que tentar recuperar o que já foi perdido.

A boa notícia é que a ciência nos deu, nas últimas décadas, ferramentas reais para isso. E a combinação dessas ferramentas é hoje o padrão de tratamento recomendado pelos principais especialistas do mundo.

1. Bloqueadores do Receptor da Angiotensina (BRA): a base de tudo

Os BRA, representados no Brasil por medicamentos como a losartana e a irbesartana, foram os primeiros a demonstrar, em estudos controlados, que era possível proteger os rins além do simples controle da pressão arterial.

Em 2001, dois grandes estudos publicados no New England Journal of Medicine mudaram a medicina: o RENAAL mostrou que a losartana reduziu em 28% o risco de falência renal em pacientes com nefropatia diabética. O IDNT demonstrou benefício semelhante com a irbesartana. Desde então, os BRA tornaram-se a pedra fundamental do tratamento de qualquer paciente com doença renal crônica e proteinúria.

O mecanismo é elegante: esses medicamentos reduzem a pressão dentro dos glomérulos, os pequenos filtros do rim, e diminuem a albuminúria, que é a presença de proteína na urina e o principal marcador de dano renal. Menos albuminúria significa rins mais protegidos.

2. Gliflozinas (inibidores do SGLT2): do diabetes à proteção dos rins

As gliflozinas nasceram como medicamentos para diabetes. Mas logo os estudos revelaram algo surpreendente: elas protegem os rins mesmo em pacientes que não têm diabetes.

Três grandes ensaios clínicos confirmaram esse benefício. O CREDENCE (2019) mostrou redução de 30% nos principais desfechos renais com canagliflozina. O DAPA-CKD (2020) foi interrompido precocemente, tão claro era o benefício da dapagliflozina — com redução de 39% na progressão da doença renal. O EMPA-KIDNEY (2023) confirmou o efeito protetor da empagliflozina em uma faixa ainda mais ampla de pacientes. Todos publicados no New England Journal of Medicine.

O mecanismo é diferente dos BRA: as gliflozinas aliviam a hiperfiltração glomerular e têm efeitos anti-inflamatórios e metabólicos favoráveis. Um detalhe importante: é normal que a função renal caia um pouco no início do tratamento, isso é esperado e benéfico, e não deve ser motivo para suspender o remédio.

3. Finerenona: atacando a inflamação e a fibrose

Mesmo quando a pressão está controlada e a glicemia está adequada, os rins de muitos pacientes continuam se deteriorando. Por quê? Porque um terceiro mecanismo está em ação: a inflamação e a fibrose mediadas pela aldosterona, um hormônio que age diretamente nos rins e no coração.

A finerenona é um antagonista não-esteroidal do receptor mineralocorticoide que bloqueia esse caminho. Os estudos FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD, publicados no New England Journal of Medicine em 2020 e 2021, e a análise conjunta FIDELITY, mais de 13 mil pacientes, publicada no European Heart Journal em 2022, mostraram reduções de 23% nos desfechos renais e 14% nos eventos cardiovasculares.

O ponto forte da finerenona é que ela atua por uma via diferente dos outros pilares, somando benefício adicional. Um cuidado necessário: ela pode elevar o potássio no sangue, por isso o acompanhamento médico é indispensável.

4. Agonistas do receptor de GLP-1: um novo eixo de proteção

Conhecidos pelo público pelo controle do peso e do diabetes (sobretudo a semaglutida), os agonistas do receptor de GLP-1 são o quarto e mais recente pilar do quarteto.

O estudo FLOW, publicado no New England Journal of Medicine em 2024, foi o primeiro ensaio clínico dedicado exclusivamente a desfechos renais nessa classe. Com 3.533 pacientes, demonstrou redução de 24% nos principais eventos renais e de 20% na mortalidade por todas as causas.

O mecanismo envolve redução da inflamação, do peso corporal e da pressão intraglomerular. O que está claro é que essa classe soma benefício aos demais pilares, é mais uma ferramenta de proteção real, baseada em evidência.

E o que vem por aí? Os inibidores da aldosterona sintase

A ciência não para. Hoje, ensaios de fase 2 e 3 estão avaliando uma nova classe: os inibidores da aldosterona sintase, entre eles o baxdrostate, o vicadrostate e o lorundrostate. Em vez de bloquear o receptor da aldosterona (como faz a finerenona), esses medicamentos impedem que a aldosterona seja produzida, atuando na própria enzima CYP11B2.

Resultados iniciais, publicados no The Lancet em 2024, mostram reduções promissoras de albuminúria e pressão arterial. O ensaio EASi-KIDNEY está em andamento. Esses medicamentos ainda não estão aprovados para uso clínico, mas representam o futuro próximo da nefroproteção.

📌  Atenção: os inibidores da aldosterona sintase ainda estão em fase de pesquisa e não estão disponíveis para uso clínico rotineiro. A decisão terapêutica é sempre individual e deve ser tomada com seu médico.

Conclusão: o tratamento combinado salva rins

A grande revolução da nefrologia moderna é que não precisamos mais escolher apenas um medicamento. O Quarteto Fantástico, BRA, gliflozina, finerenona e agonista de GLP-1, age por mecanismos complementares e, quando combinado de forma individualizada, pode reduzir drasticamente a progressão da doença renal crônica e o risco de diálise.

Cada paciente é diferente. A escolha e a combinação dos medicamentos dependem da função renal, do nível de proteinúria, da presença de diabetes, de doenças cardiovasculares associadas e de outras características individuais. Por isso, o acompanhamento com um especialista em nefrologia e hipertensão é fundamental.

Lembre-se: o melhor momento para proteger os rins é antes que a função piore. A detecção precoce e o tratamento adequado fazem toda a diferença.

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