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Reportagem de Capa IstoÉ

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Preocupados com a gravidade dos danos causados pela hipertensão, médicos, cientistas e indústria farmacêutica criam estratégias mais eficazes contra o problema

Na maioria dos casos, ela age silenciosamente. Durante anos, a vítima nada sente. Até que sucumbe acometida de um infarto ou de um derrame. Trata-se da hipertensão, doença que atinge 600 milhões de pessoas no mundo, 21 milhões no Brasil. Com o tempo, sua ação é devastadora. Basta imaginar o que ocorre quando as extremidades de um cano de água são fechadas. Lá dentro, a pressão exercida pelo líquido para escapar é tão grande que pode até furar as paredes do cano. De forma semelhante, a pressão elevada lesa as paredes dos vasos sanguíneos, causando sérias consequências, entre elas os temíveis acidentes cardiovasculares. É uma bomba-relógio.

É por causa disso, de sua extrema gravidade, que boa parte da ciência e da indústria farmacêutica se empenha em encontrar formas mais eficazes de tratamento e de estabelecimento dos níveis aceitáveis. Nesse esforço, o que se vê é um grande rigor na definição dos limites da pressão que o corpo suporta sem que suas estruturas sejam prejudicadas. Por isso, os índices hoje em vigor são menores do que os adotados anteriormente nas cartilhas médicas. Segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão, a pressão arterial ideal deve ser menor que 130 mmHG (milímetros de mercúrio) por 90 mmHG, ou 13 por 9. Até pouco tempo atrás, esse índice era de 14 por 9. Para pacientes com doenças que podem levar ao desenvolvimento da hipertensão ou agravá-la, como a diabete, as taxas são mais apertadas. Devem ser menores que 12 por 8.

Alcançar essa meta exige uma revolução na forma de viver. “Adotar uma alimentação sem tanto sal nem gordura, por exemplo, é imprescindível”, aconselha o cardiologista José Ribeiro, do Hospital Felício Rocho, de Belo Horizonte. Diminuir o stress também (ele eleva os níveis de adrenalina no sangue, que, por sua vez, aumentam a pressão). Ioga é uma boa opção de relaxamento. O aposentado carioca Benjamim Vital, 73 anos, usa o método para ajudar no controle de sua pressão. “Estou melhor. Minha pressão está boa”, diz.

Porém, como se sabe, nem sempre é fácil mudar os hábitos. Além disso, em muitos casos a medida não é suficiente. “O resultado é que 60% dos hipertensos só conseguem lutar contra a enfermidade com a ajuda de medicamentos”, afirma Fernando Nobre, coordenador da Unidade de Hipertensão do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP). Diante dessa constatação, médicos e ciência se mobilizam para tornar o tratamento à base de remédios mais potentes. Uma das maneiras de incrementar essa frente de batalha é usar a associação de drogas, saída que ganha cada vez mais espaço. A combinação mais usual une um anti-hipertensivo com um diurético. O primeiro regulariza diretamente a pressão, enquanto o segundo combate a retenção de líquidos, fator que agrava o problema. “Associando dois medicamentos com mecanismos de ação diferentes, é possível receitar doses menores e diminuir os efeitos colaterais das medicações”, explica o médico Artur Beltrame Ribeiro, presidente do Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O administrador Manuel Ruiz, 40 anos, de São Paulo, já se beneficiou dessa novidade. Hipertenso há cinco anos, ele usava somente um medicamento, mas os resultados eram insignificantes. “Passei a tomar uma combinação de remédios, comer melhor e fazer exercícios. Agora minha pressão está controlada”, conta.

Combinação

Os laboratórios farmacêuticos entraram na tendência e investem no lançamento de produtos que reúnem num mesmo comprimido duas substâncias. A Novartis colocou no mercado o Diovan Amlo, que combina o valsartan (inibe a ação da substância angiotensina II, envolvida no processo de aumento da pressão) com o anlodipino (ajuda na dilatação dos vasos sanguíneos). A empresa garante que a associação das duas drogas torna possível a redução da dosagem de cada uma e, consequentemente, dos incômodos causados separadamente pelos medicamentos, como dor de cabeça e inchaço nas pernas.

Outro objetivo da indústria é produzir remédios que controlem a pressão e ofereçam uma proteção direta aos vasos. “O valsartan e o anlodipino também protegem o coração e os rins, que sofrem os efeitos da hipertensão”, afirma Roberto Arruda, da Novartis. Seguindo a mesma corrente está o laboratório Pfizer. Um estudo divulgado em dezembro na revista da Associação Médica Americana, JAMA, mostrou que seu anti-hipertensivo Norvasc, além de reduzir a hipertensão, bloqueou o depósito de placas de gordura nas artérias de pacientes nos quais esse processo já havia sido iniciado. “Não adianta apenas combater a hipertensão. É preciso analisar se a droga traz outros benefícios, como a diminuição do risco de eventos cardiovasculares”, diz o médico João Fittipaldi, diretor-médico da Pfizer no Brasil. O laboratório também pretende lançar a versão do Olmetec (que bloqueia a angiotensina II) associado a um diurético. Outro laboratório que tem uma linha forte de anti-hipertensivos é o brasileiro Biosintética. Em 2004, ele fabricou o Lotar, que junta um composto para bloquear a angiotensina II (Losartan) e outro vasodilatador (besilato anlodipino).

Nos consultórios, a novidade é a elaboração de outra abordagem contra a doença. As recentes descobertas sobre a hipertensão fizeram com que os médicos, hoje, não mais dissociem a enfermidade da obesidade e da diabete tipo 2. Essas três patologias, infelizmente, estão bombasticamente associadas. Uma acaba levando à outra, numa ciranda que pode ser fatal. Os mecanismos pelos quais isso ocorre são bastante complexos e ainda figuram na lista de estudos médicos, mas que a associação existe, existe. “Cerca de 40% dos hipertensos que atendo são obesos”, estima Dante Giorgi, da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração de São Paulo.

Terapia

Essa junção de doenças é a síndrome metabólica. Preocupada em alertar os médicos sobre a íntima relação entre uma enfermidade e outra, a Sociedade Brasileira de Hipertensão lançou, há duas semanas, o primeiro documento oficial sobre o assunto. Trata-se de uma diretriz com novas orientações sobre a condução do tratamento, que será distribuída aos profissionais de saúde: é preciso evitar – ou controlar, quando já for tarde demais – as três enfermidades, e não olhar apenas para a pressão alta. “Se o paciente é hipertenso e está acima do peso, é importante cuidar dos dois problemas”, diz o médico Robson Santos, presidente da Sociedade Brasileira de Hipertensão. Na Unifesp, a endocrinologista Maria Teresa Zanella acaba de montar um centro específico de tratamento da síndrome. No local, circulam hipertensos, obesos e diabéticos. “A síndrome precisa ser cuidada e entendida com a ajuda de vários profissionais. O tratamento tem de ser multidisciplinar”, diz a médica.

Há ainda outro cuidado que vem ganhando destaque no tratamento da hipertensão: encontrar formas de fazer com que o paciente siga corretamente as orientações. Esse é um grande desafio. Talvez porque a doença não dê sinais ou provoque muitos desconfortos antes de aparecer na forma de desastres maiores, muitos doentes se esquecem do tratamento. Uma tese elaborada pela psicóloga Rita Pugliesi, a ser defendida este ano na Unifesp, mostra, por exemplo, que de 74 hipertensos não mais que 34% tomam o remédio regularmente. “Eles não tomam porque não sentem sintomas, ou ficam depressivos por terem uma doença crônica, ou medem a pressão para ver se está sob controle e, se estiver, acham que é desnecessário”, conta Rita. Nos Estados Unidos, é a mesma coisa. “Lá, só 34% dos pacientes estão com a pressão sob controle”, informa o médico Décio Mion, chefe da Liga de Hipertensão do Hospital das Clínicas de São Paulo. Uma das armas que estão sendo usadas para mudar essa atitude é a terapia cognitiva-comportamental. Os psicólogos ajudam o doente a identificar os motivos que o levam a não seguir o tratamento e a mudar sua forma de lidar com isso. O resultado dessa tática é positivo. Ótimo. Quando o controle da pressão é efetivo, as chances de ocorrência de derrame diminuem em 40% e as de infarto, em 30%.

Fonte: Isto É

Obesidade X Risco Vascular

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Adotar um estilo de vida saudável desde a infância é a maneira mais prática e o melhor custo-benefício para a prevenção das doenças cardiovasculares na idade adulta, afirma o coordenador de uma pesquisa norte-americana publicada abril deste ano na “Circulation”.

O estudo indica que as artérias de crianças obesas agem como artérias de indivíduos fumantes de meia-idade, no que se refere ao risco de ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral na idade adulta. Esse efeito maléfico, no entanto, pode ser revertido por meio de dieta alimentar e exercícios físicos regulares, concluiu a pesquisa.

Um dos co-autores do estudo, Kam S. Woo, docente de cardiologia da Universidade de Hong Kong, China, se diz surpreso pelo fato de as crianças avaliadas terem desenvolvido anormalidades cardiovasculares tão precocemente, mas que estas poderiam ser rapidamente revertidas apenas com simples mudanças de estilo de vida.

Vasodilatação
O estudo envolveu 54 meninos e 28 meninas, com 9 anos de idade. Crianças com IMC igual ou maior que 28 foram consideradas com sobrepeso, e de 54 em diante, consideradas obesas. O estudo não incluiu histórico de doença cardíaca precoce, mas as crianças já apresentavam sinais de aterosclerose precoce.

Por meio de ultrasom, os pesquisadores avaliaram a capacidade da artéria braquial, no braço, de expandir-se em resposta a um aumento do fluxo de sangue. Esta resposta é chamada dilatação dependente de endotélio. Uma menor reação da artéria, ou seja uma menor expansão, pode ser um sinal precoce, característico de aterosclerose e comprometimento vascular.

Os investigadores também utilizaram o ultrasom para medir a espessura de camadas internas na parede dos artérias carótidas, que fornecem sangue ao cérebro.

Segundo a pesquisa, apesar de as crianças ainda não haverem sequer entrado na puberdade, os resultados do teste vascular podem ser comparados aos de adultos de 45 anos, fumantes por 10 anos. “Quando comparadas a crianças sem sobrepeso, na idade adulta os indivíduos avaliados terão 3 a 5 vezes mais chances de ocorrência de ataque cardíaco ou acidente cerebral antes dos 65 anos”, comenta Dr Woo.

Dividindo as crianças em 2 grupos – dieta de 900 a 1200 calorias e mesma dieta mais exercícios de 75 minutos duas vezes por semana, os pesquisadores puderam verificar a importância dos exercícios para a redução dos fatores de risco.

Dieta e exercício foram associados a um maior benefício à função endotelial do que a dieta apenas. Ao final do estudo que durou pouco mais de um ano, as vinte e duas crianças que se mantiveram no programa de exercícios e dieta reduziram significantemente a espessura da camada das carótidas, assim como o nível de lipídeos e a porcentagem de gordura.

Dados do governo norte-americano revelam que 15% das crianças entre 6 e 11 anos têm sobrepeso ou obesidade. Quase metade delas não praticam exercícios fisicos.

Esses resultados ressaltam a importância da prática regular de atividade física para a prevenção de disfunção vascular associada à obesidade, em crianças.

Fonte: http://circ.ahajournals.org